Idols, “Idolls!” e o futuro da animação 3D

Bela camiseta. (foto: Reprodução/Shin-Ei Animation)
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Um curioso fenômeno da cultura oriental é a fissura dos adultos com adolescentes rumo ao estrelato. Idols são estrelas destinadas a atender um público maduro, mas carente, com um ideal de perfeição, um oásis perante o caótico mundo exterior. Em sua maioria adolescentes, fazem shows e exibições para um público de quarentões cansados da vida mundana. Podem ser cantoras, atrizes, dançarinas ou até modelos e há um submundo de categorias que vão do infantil até o adulto, passando pela dublagem (voice acting) e até pelo mundo virtual na forma de animação simulada.

Grupo HKT48 na faixa comentada de um episódio de Armor Shop For Ladies & Gentlemen II (foto: Reprodução/IMAGICA Lab)

No Japão, o fenômeno traz consigo consequências como a iminente popularidade, tornando das estrelas celebridades num piscar de olhos, através de concursos que lotam estádios e dominam a televisão japonesa. Apesar disso, não significa que qualquer um pode ser idol. As agências de recrutamento de talentos encontram na voz, na idade e no aspecto físico as vertentes para ser uma escolhida, valorizando principalmente quem consegue trazer a inocência no semblante.

O público ocidental que vê algum conteúdo do gênero pela primeira vez sem um contexto cultural tende a achar esse apego entre fã e idols um pouco problemático. De fato, há um problema evidente, que é a essência da cultura que normaliza a atração por uma pessoa supostamente vulnerável. Apesar disso, é fácil entender o que motiva esse público maduro a colocá-las em um pedestal. Insatisfeitos com o elevado nível de cobrança em seus empregos e passando por dificuldades na vida pessoal, homens veem nessas figuras femininas e sua devoção ao público um ideal de relacionamento onde não precisam, por exemplo, constituir uma família e somar seus conflitos da vida real com os que já existem no trabalho.

A carreira de idol em si não é duradoura – após os 25 anos, já existe uma preparação para a “aposentadoria”, já que é mais difícil decolar por não conseguir ser levado a sério. Longos históricos de abusos trabalhistas desmotivam os grupos em ascensão: salários baixíssimos, longas jornadas de trabalho e perda do controle da própria vida pessoal para cumprir exigências de patrocinadores são recorrentes. Isso acaba gerando um dilema nas mentes dos jovens japoneses que estão procurando o estrelato: deixar-se levar pela vida de idol e arriscar o futuro ou rejeitá-la em nome de algo mais tradicional?

As protagonistas recebem dicas do conselheiro de madeira à esquerda. (foto: Reprodução/Shin-Ei Animation)

Com esse questionamento, chegamos em Idolls! – IDOL Survival, uma das apostas da temporada de inverno 2021. O anime traz a história de quatro aspirantes que escolheram a vida de idols e decidiram se tornar um grupo de sucesso, mas o caminho é conturbado. Sem fãs, a missão delas é encher a casa de shows Budoukan com 100 pessoas em 10 dias.

Volto a dizer que o mundo dos animes é rico em produções dos mais diversos tipos, e os focados em idols são mais um exemplo. Com uma vasta quantidade de produções e nadando na popularidade do gênero e dos animes em si, é fácil identificar um padrão de sucesso. Até idols são convidadas para participações especiais em animes de gêneros diferentes, como aconteceu com o grupo HKT48 que dublou e foi convidado para as faixas comentadas dos episódios de Armor Shop for Ladies & Gentlemen II. Apesar disso, a produção aqui foi um ponto fora da curva.

A escolha dos seiyuu (voice actors japoneses, semelhante aos dubladores) foi feita através da competição What Sei You?, transmitida pelo YouTube em maio de 2019. O programa trouxe 84 competidores separados em 10 equipes e quatro vencedoras entraram para o elenco. De certa forma, é como se o casting de Idolls! tivesse sido uma temporada do The Voice. No final, as escolhidas foram Aina Rutō, Ami Mizuno, Shiori Hanaoka e Ruka Yashiro, que dão os mesmos nomes às protagonistas da trama.

Deixando de lado a tradicional animação 2D – que, inclusive, foi um dos meus destaques ao comentar O Tempo Com Você na semana passada –, Idolls! usa da técnica de captura de movimentos e bastante computação gráfica 3D para darem vida às quatro protagonistas. Ou seja, além de dublar, o elenco também precisou atuar, como se fosse um live-action.

Se você, leitor, teve alguma experiência com animações e reparou na imagem que abre a coluna, deve ter sentido uma sensação estranha. A novidade realmente assusta no começo. Parece faltar sincronia entre a feição das personagens e a movimentação também parece ser meio gelatinosa e elástica no decorrer dos episódios. Era como assistir alguma VTuber (virtual youtuber) atuando em uma série. A abertura e o encerramento dos episódios passam a sensação de que houve um capricho maior na pós-produção, e a atuação capturada acaba trazendo uma personalidade bem original às personagens. Numa arena lotada, o grupo canta o tema de abertura “We Are The One” em um show cheio de efeitos especiais que remete ao sonho do sucesso almejado. O tema de encerramento 「夢みてさめでも」 (“Yumemite Same Demo”) traz o grupo em uma apresentação que começa intimista, sem o público e com o mesmo figurino casual de quando estão em casa, saltando aos olhos logo em seguida numa tentativa de mostrar a evolução acontecendo.

Tema de abertura de Idolls! se passa em arena lotada, que é o sonho do grupo (foto: Reprodução/Shin-Ei Animation)

Embora demonstrando uma situação real que é a dificuldade de ascensão na carreira de idols, a história é desconexa da realidade, claro. Não é em todo lugar que um pedaço de madeira falante determina os passos de alguém, mas nada que beire o absurdo. Ainda sobre o estilo da direção, mais detalhes que fogem do padrão. Durante o terceiro episódio, em alguns momentos em que as meninas simulam uma atuação para avaliar onde a Aina está errando na distribuição de panfletos de divulgação do grupo, ocorrem cortes de cenas no formato de tela 16:9 para 21:9 no maior estilo “filme IMAX”, que ficaram bem legais. A química entre Aina, Ami, Shiori e Ruka é boa e isso contribui ainda mais para que os 8 minutos passem rápido.

Isso mesmo, 8 minutos. Os episódios são curtos e esse tempo já inclui os 3 minutos da abertura e encerramento. Apesar de simples, é uma história que traz a curiosidade do mundo idol em uma visão mais confortável e fácil de entender.

Idolls! está disponível na Crunchyroll com novos episódios em transmissão simultânea com o Japão às sextas-feiras, 13h00.

Caio Alexandre é entusiasta de cinema, exibição, animes e cultura pop em geral. Escreve desde 2008 sobre os mais variados assuntos, mas sempre assumiu a preferência pelo cinema e sua tecnologia embarcada. Não dispensa um filme com um balde de pipoca e refrigerante com o boss no fim de semana. No TV Pop, fala nas manhãs de quinta sobre tudo que é tendência no universo da cultura pop. Converse com ele pelo Twitter, em @CaioAlexandre, ou envie um e-mail para caio@tvpop.com.br. Leia aqui o histórico do colunista no site.

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