A cereja do bolo: o ingresso da Netflix na produção de novelas no Brasil

Reed Hastings é o CEO da Netflix: a gigante do streaming quer fazer novelas no Brasil (foto: Divulgação/Netflix)
Reed Hastings é o CEO da Netflix: a gigante do streaming quer fazer novelas no Brasil (foto: Divulgação/Netflix)
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Com um cardápio vasto e tendo cativado o telespectador brasileiro a ponto de se tornar sinônimo de plataforma on demand, à Netflix ainda resta a cereja do bolo: o seu ingresso na produção de novelas — comprovadamente uma das maiores paixões do entretenimento do Brasil.

Ainda que séries estejam em uma curva crescente e que os últimos dez anos tenham sido marcados por um grande salto em qualidade e em quantidade, as novelas seguem imbatíveis: ditam comportamentos, norteiam conversas e são um dos poucos denominadores comuns à uma sociedade tão complexa, heterogênea e desigual como a brasileira.

Rumores de que a Netflix poderá ingressar no ramo de novelas não são recentes. No entanto, superada essa fase de pandemia vivida por todo o mundo, a gigante do streaming encontrará o melhor momento para investir no setor.

Casting

As políticas recentes da Globo, maior empregadora artística individual do Brasil, fizeram com que autores como Walther Negrão e Miguel Falabella e atores como Antônio Fagundes, Tarcísio Meira, Glória Menezes, Malvino Salvador e Malu Mader perdessem seus vínculos exclusivos. Disponíveis no mercado, certamente há um grande interesse do público em vê-los — em alguns casos, pela primeira vez – fora das telas da Globo.

E esse movimento não é recente ou exclusivo da Globo ou por conta do corte de custos promovido por ela. Nomes que deixaram a Globo há mais tempo ou com passagens recentes pela Record e SBT, como os diretores Wolf Maya, Alexandre Avancini, Edson Spinello, Reynaldo Boury e os autores Tiago Santiago, Vivian de Oliveira, Gisele Joras, Lauro César Muniz, Marcílio Moraes e Ana Maria Moretzsohn também estão sem vínculo com canais de TV.

Investimento

Com o dólar em alta e sem previsão de voltar para patamares de R$ 3 – que já foram considerados altos há alguns anos -, a Netflix tem facilidade para investir. Uma novela da Globo que vai ao ar às 21h tem o custo médio por capítulo na casa dos R$ 250 mil. Em uma conta simplória, ao se multiplicar por 180 capítulos, tem-se um investimento de R$ 36 milhões.

Não se pode assumir esses valores como parâmetros para um comparativo por uma série de motivos (infraestrutura própria, estúdios, equipamentos, quantidade de capítulos etc). Mas, ao assumirmos o valor de R$ 36 milhões como um referencial, ao fazermos uma conversão simples com o dólar a R$ 6, a novela teria um custo de US$ 6 milhões – e essa seria a cifra a ser injetada em alguma produtora parceira.

No começo de 2020, antes da pandemia, o site Tecmundo noticiou que a Netflix tinha planos de investir US$ 17 bilhões em conteúdo próprio ao longo do ano – ou seja, uma novela de US$ 6 milhões representaria meros 0,04% desse montante.

Inovação

O modelo de produção da Netflix poderia agradar bastante aos roteiristas e ao público, mas a aceitação do modelo de exibição – seja lá qual for, seria um mistério. Dificilmente o público de streaming teria a paciência que os telespectadores de hoje têm de acompanhar uma novela por 180 capítulos.

As novelas de streaming provavelmente teriam entre 50 e 100 episódios, o que tornaria o seu texto muito mais ágil (dispensando a criação de núcleos paralelos e a famosa barriga – duas das reclamações mais comuns e unânimes entre os autores de novelas).

Outra vantagem aos autores estaria na produção: dificilmente a Netflix se submeteria a obras abertas e aos riscos que elas proporcionam. Obras fechadas dariam maior conforto aos roteiristas e agilidade na produção, permitindo que cenas do primeiro e do último capítulo pudessem ser gravadas no mesmo dia caso a locação desejada fosse a mesma.

A produção também ganharia em qualidade: cenários (que só existem devido ao tempo extenso que a novela leva para ser produzida) poderiam ser substituídos por locações, o que passa um nível de veracidade muito maior.

Também tende a haver maior cuidado com as externas, que nas novelas são excessivas nos primeiros capítulos e são reduzidas à medida que a trama avança e a folga de capítulos gravados diminui (fazendo com que a direção opte por concentrar as gravações em estúdio e cidade cenográfica). Com um cronograma menos suscetível a alterações, seria possível distribuir as externas de forma mais linear e concedendo, dessa forma, um melhor acabamento ao trabalho como um todo.

Em contrapartida, caberia à Netflix pensar no formato de exibição. Subir 50 ou 100 capítulos de uma vez acabaria com uma das características sociais mais marcantes das novelas: o efeito de comunidade.

Enquanto vão ao ar, novelas reúnem famílias, amigos e redes sociais, que repercutem cenas, fazem memes e especulam ao mesmo tempo pois todos estão na mesma página. Ao exibir uma novela como se exibe uma série, esse efeito deixa de existir. Por outro lado, também soaria estranho uma plataforma de streaming ter um dia e horário marcado para exibição do capítulo –algo que remeteria inclusive à volta do conceito da programação linear, cujo fim é tão prometido.

Por fim, há talentos e mercado. Temos grandes artistas e técnicos e as novelas são uma paixão nacional, que, quando sucesso, não alavancam só seus horários, mas os anteriores e seguintes. Por mais que a produção possa ser diferente ou o número de capítulos seja menor, o fato de se contar uma história com mocinhos e vilões é uma receita que cativa o brasileiro há décadas e assim continuará sendo.

João Gabriel Batista é publicitário, com pós-graduação em Marketing and Sales na Escola de Negócios Saint Paul e MBA em Gestão Empresarial pela FGV. Tem 29 anos e atua com marketing há 11, com passagens por veículos de comunicação, como emissora de TV, rádio e jornal, e multinacionais do segmento de telecom. É analista de mercado e negócios no TV Pop, com publicação nas terças. Converse com ele por e-mail em joao@tvpop.com.br. Leia aqui o histórico do colunista no site e conheça o seu perfil no Linkedin.

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